Chá das 5 » 2008 » Agosto

29
Ago, 2008
Por susana em 29/08/08 às 23:26 | Arquivado em Frustrações, Pensamentos, Recordações

“Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega…”

Desde cedo ensinaram-me todas as boas maneiras que uma menina deve saber. Aprendi a ser simpática para as pessoas e dizer coisas agradáveis. Se não tiver nada agradável para dizer-lhes devo então permanecer calada. Ontem quando eu cheguei ao café, encontrei os meus amigos de infância. Tal foi a minha cara de surpresa quando dei a minha face para aquele beijo que significara o reencontro. Devo dizer que não recebi qualquer beijo ou manifestação de carinho… foi aí que me apercebi do significado da palavra solidão. Não que eu me considerasse alguém só, pelo contrário, eu sempre tive companhia… mas o facto de ter sido ignorada naquele momento fez-me sentir pequena, mais pequena do que alguma vez fui.

Eu adoro o cheiro da chuva, ficar sentada a ver um bom filme ao lado do meu namorado. O seu abraço me faz sentir especial e as palavras sábias da minha mãe são uma inspiração. O barulho dos meus irmãos ou o vulto do meu pai que impõe respeito e segurança. Eu não estou só! Aprendi a dar importância aos mais próximos pois esses nunca me deixaram ficar mal.

“Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.”

Vivo para hoje, vivo rumo ao desconhecido. Destino? Felicidade! Não invejo coisas materiais. Tenho sonhos fúteis como qualquer pessoa, mas as paredes não me guiam. O cantar do pássaros já é diferente… Esse sim… guia a minha alma, conforta o meu coração. No meu caminho encontro pedras que não são nada comparado aquelas belas maças que colhi na grande árvore que encontrei há 10 minutos atrás. Faço as pazes comigo mesma, viajo só mas trago comigo todos os que se cruzaram e todos os que me deram um pedacinho da sua alma.

“Há uma parte nos outros, defeituosa, frágil, que me compreende, se enternece comigo.”

Encontrei várias raposas do meu caminho. Usei a palavra raposa como metáfora… na verdade eu queria dizer conhecidos. Pessoas que considerei importantes outrora… Mas pensando bem foram importantes, pois permitiram-me crescer e aprender com os erros.

“Dás-me licença que te beije? Não? Não te vás embora ainda, deixa-te estar. Apesar de tudo passámos um bocado agradável, não foi? A mim agradou-me. Gosto do teu cheiro. Se te apetecer voltar toca a campainha três vezes e carrego naquele botão que abre a porta da rua. E se me avisares com antecedência compro um bolo. Quando não estiveres cá e me sentir sozinho como as migalhas que sobrarem. Vou contar-te um segredo: há alturas em que as migalhas ajudam.”

António lobo Antunes, Migalhas

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